Sem querer, um pensamento, daqueles que deveriam permanecer secretos, escapa-lhe pela voz. O outro o escuta, perfeitamente, erguendo a sobrancelha direita, como se perguntasse e respondesse ao mesmo tempo a própria pergunta, impregnado da sabedoria de que tem a chance de presenciar um deslize alheio. Uma sabedoria cortejada pela displicência.
Ele revira os olhos, o homem que perdeu para a voz o pensamento, tentando convencer seu espectador que fora apenas um infeliz comentário, e não por covardia para defender esse pensamento, mas cansaço por já tê-lo feito, e por tantas vezes, sem qualquer sucesso.
Seu companheiro de viagem de trem, um homem muito elegante, um conhecido desde vinte e poucos minutos, boceja um sono inventado. É o desfecho antecipado do que deveria ser uma viagem de trocas, na qual o intelecto de um desafiasse o do outro, transformando os trilhos em conquista pessoal. Mas o pensamento fugiu de um, e se esparramou pela paciência do outro, tornando-a irritada, devota do conforto de quem se nega a mergulhar em confronto.
Ao lado do libertador de pensamento censurado, um outro homem, já de idade adiantada, observa a tudo com a curiosidade de quem não está envolvido na trama, mas adoraria ser convidado a participar dela. Sorri, salutar sorriso, ao homem que perdeu o pensamento, e faz um gesto com a cabeça que diz "eu concordo", ou seria "eu concordo em desconcordar"?. Os olhos do outro brilham, como se ao ser notado, a vida lhe voltasse à alma, e as palavras ao silêncio de si. Ao anonimato da voz.
Olha pela janela, desferindo um olhar mais delicado à paisagem. A sua frente, seu companheiro de viagem está de olhos fechados, negando qualquer contato com o homem de pensamento desprendido da lógica. Para ele, na escuridão das cortinas baixadas, pálpebras em descanso, há menos a se fazer do que encarar uma discussão filosófica que a nada levará, causando aborrecimento e desventura. Acredita que melhor é ficar à revelia de qualquer confissão indesejada.
O senhor continua a observar o homem das palavras sequestrada pelo som. E quando ele encara seu observador, escapa-lhe também um sorriso de troca, de sintonia. O senhor não hesita em lhe perguntar de onde saíra tal pensamento.
"Do dentro do meu dentro... Das bordas e dos inícios... Do lar dos segredos".
E o senhor se aventura a tecer perguntas ao homem de pensamento desgarrado, buscando na sua curiosidade certo entendimento com a realidade, a vedete da vida. E assim compreende a compreensão do outro, e mesmo questionando alguns pontos da tal, é de uma delicadeza incapaz de ofender ou reprimir.
O preguiçoso para assuntos mais delicados, mais humanos e profundos, arregala os olhos para ouvir a conversa dos outros. Isso mesmo... Ele tem de ver para acompanhar o dito. É do tipo que se atém aos livros com figuras, e acaba rindo dos infortúnios alheios, mesmo quando há apenas miséria.
Fim da viagem, e os elegantes homens desembarcam, indo em busca das suas bagagens. Cada um pegará um rumo, cada qual se encaixará no lugar no qual cabem seus pensamentos.
E o senhor, já segurando sua mala, aproxima-se do jovem que se arrependeu de baixar a guarda ao pensamento rebelde. A feição do senhor é leve, solta, das que convidam para o apreço. O jovem lhe estende a mão, o senhor atende ao cumprimento, mas não sem dizer:
"Se a cada viagem você soltar um pensamento deste, tirá-lo do baú dos seus segredos, lançá-lo ao mundo, quem sabe consiga trazer para o debate, daqueles que geram conhecimento, os que ignoram completamente a importância de se escutar, saborear a impressão do outro, concordar, mas nem sempre com tudo, discutir, mas não sem perder a razão através do destempero".
O moço do pensamento escapado do seu dentro guardou com ele o conselho daquele distinto senhor, e deu de lançar pensamentos a cada viagem de trem que fazia. Às vezes, o silêncio após dito era completo, mas em outras havia quem o desafiasse a repensar o dito, quem desejava saber como ele chegara a tal pensamento, e até mesmo quem suspirasse profundamente, e depois soltasse o ar, sem nada dizer.
E assim ele se tornou conhecido pelos pensamentos soltos, desnudos de pudores, muitas vezes embargado de tanta emoção. Ficou conhecido e seus pensamentos reconhecidos. Talvez se torne filósofo, escritor, diplomata, presidente. Talvez continue sendo um comerciante da área da saúde, ou apenas um viajante com uma vontade tamanha de aprender com o outro, ainda que ele arqueie sobrancelhas, feche os olhos, finja dormir.
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